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:: Quarta-feira, Maio 07, 2008 Comments: ::

:: DELIRIUM 12:38 AM [+] ::
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:: Terça-feira, Março 11, 2008 Comments: ::

:: DELIRIUM 1:29 PM [+] ::
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:: Quinta-feira, Dezembro 23, 2004 Comments: ::
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A MÁSCARA - Augusto dos Anjos
Eu sei que há muito pranto na existência,
Dores que ferem corações de pedra,
E onde a vida borbulha e o sangue medra,
Aí existe a mágoa em sua essência.
No delírio, porém, da febre ardente
Da ventura fugaz e transitória
O peito rompe a capa tormentória
Para sorrindo palpitar contente.
Assim a turba inconsciente passa,
Muitos que esgotam do prazer a taça
Sentem no peito a dor indefinida.
E entre a mágoa que a máscara eterna apouca
A Humanidade ri-se e ri-se louca
No carnaval intérmino da vida.
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A DOR - Augusto dos Anjos
Chama-se a Dor, e quando passa, enluta
E todo mundo que por ela passa
Há de beber a taça da cicuta
E há de beber até o fim da taça!
Há de beber, enxuto o olhar, enxuta
A face, e o travo há de sentir, e a ameaça
Amarga dessa desgraçada fruta
Que é a fruta amargosa da Desgraça!
E quando o mundo todo paralisa
E quando a multidão toda agoniza,
Ela, inda altiva, ela, inda o olhar sereno
De agonizante multidão rodeada,
Derrama em cada boca envenenada
Mais uma gota do fatal veneno!
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AO LUAR - Augusto dos Anjos
Quando, à noite, o Infinito se levanta
À luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha tátil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!
Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!
Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado...
Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude
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INSÂNIA DE UM SIMPLES - Augusto dos Anjos
Em cismas patológicas insanas,
É-me grato adstringir-me, na hierarquia
Das formas vivas, à categoria
Das organizações liliputianas;
Ser semelhante aos zoófitos e às lianas,
Ter o destino de uma larva fria,
Deixar enfim na cloaca mais sombria
Este feixe de células humanas!
E enquanto arremedando Éolo iracundo,
Na orgia heliogabálica do mundo,
Ganem todos os vícios de uma vez,
Apraz-me, adstrito ao triângulo mesquinho
De um delta humilde, apodrecer sozinho
No silêncio de minha pequenez!
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:: DELIRIUM 1:47 PM [+] ::
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:: Quinta-feira, Dezembro 02, 2004 Comments: ::
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Adeus - Delírium
Te amei,
Sim eu te amei!
Então partistes,
Mas meu amor não morreu,
Pelo contrario,
Deixei que crescesse.
Então sofri por ti,
E chorei por ti,
E quando as lagrimas secaram,
Sangrei por ti.
Minha alma foi corrompida,
Meu coração enigreceu,
E nas trevas eu cai.
Mas esse tempo se foi,
Libertei-me de meus grilhões,
Estou livre de ti!
Então digo-lhe adeus,
Não passas de uma lembrança,
Uma mancha em meu passado!
Nas trevas ficarei,
Pois agora são meu lar,
Mas seguirei adiante,
Sem sua lembrança a me atormentar!
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Fragmentos I - Delírium
O sangue corre
As lagrimas escorrem
As águas secam
O vinho derrama
Da luz às trevas
Da dor à paz
Rendo-me à solidão
Sucumbo à tentação
Acalmando meu coração
A lamina da salvação
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Fragmentos II - Delírium
Porque insisto?
Sou apenas mais um
Alguém se importa?
Quem percebera?
Se algum dia
Eu sumir ou morrer?
Como disse o irlandês
Muitos existem
Mas ninguém vive
Então quem se importará
Com apenas um
Se existem tantos outros?
Então deixem-me
Deixem-me morrer
Assim finalmente
Poderei ter paz...
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Fragmentos III - Delírium
A luz me dói
Arrasto-me para as trevas
Lá encontro solidão
Dor e desilusão
Os cortes em minha carne
Trazem alivio ao sofrimento
Que se esvai lentamente
Com as lagrimas que rolam
E o sangue que escorre
Cansei-me do pecado
Chega de luxuria
Desejo algo real
Eterno e permanente
Só me resta saber
Se é o calor do amor
Ou o frio da morte
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Fragmentos IV (Inacabado) - Delírium
Quando o amor rima com dor
E o sentimento só traz sofrimento.
Se com sorte alcançamos a morte.
Para não sofrer desistimos de viver,
As palavras não saem e os desejos nos traem
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:: DELIRIUM 6:34 PM [+] ::
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:: Sábado, Novembro 13, 2004 Comments: ::
Bom , pra não deixar isso aqui parado eu resolvi postar o meu primeiro conto, mas aqui ele ta com algumas correções e a parte que não tinha titulo finalmente ganhou o seu ... Fico por aqui ... até ...
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Conto Noturno
Parte I: Demônio Sob o Luar.
Diga-me meu jovem, você acredita em vampiros? Não? E se eu lhe disser que eles existem? Eu não riria se fosse você. Porque o chamei aqui? Logo saberás. Mas antes irei contar-lhe uma historia. Agora se acalme e escute. Essa é uma historia real que se passou há alguns anos.
Havia esta garota, Luciane era seu nome, ela não era exatamente uma deusa, mas ainda assim era muito bonita. Tinha olhos castanhos e cabelos negros como a noite. Ela também não possuía nenhum talento em especial. Mas havia sido escolhida. Uma criatura que vivia nas trevas a havia escolhido para ser sua progênie, sua cria. Ela era apenas uma garota mundana sem nada em especial. Então por que ele a escolhera? Ela não era totalmente normal. Ele havia farejado uma pequena sutileza nela. Uma esquizofrenia latente, apenas esperando a oportunidade certa para se manifestar na mente da garota. Então uma noite quando ela voltava da faculdade, ele decidiu se manifestar e conceder a maldição à garota.
Ela andava apressada e atenta pelas ruas escuras. Há alguns meses ela já tem a sensação de ser observada. Eis que ela ouve algo atrás dela, ela se vira e nada vê. Ao virar-se para retomar seu caminho ela se depara com um homem. A rua estava deserta antes de ela se virar, e agora na sua frente havia surgido meio que do nada esse homem. Ele não aparentava ter mais de 25 anos, seus olhos eram de um verde muito claro e seus cabelos negros desciam abaixo de sua cintura. Não preciso dizer que ela levou um susto. Ele a encarava com um olhar perturbador. O medo a paralisara. Ele esticou o braço e tocou gentilmente o rosto de Luciane. Ela estava sem reação, alguma coisa a impedia de se mover, ela não sabia se era o medo que os olhos do estranho lhe causara, mas sabia que não conseguia se mexer. O homem se afastou e olhou para o céu. Podia-se ver apenas a lua crescente, ou minguante eu não sei ao certo, mas podia-se ver apenas uma faixa estreita do satélite. Ele fitou-a novamente e aproximou-se:
-Veja - disse ele com uma voz serena e com um leve sotaque francês apontando para cima - veja como a lua é bela. É uma pena que esta noite ela non esteja mostrando toda sua beleza. O que foi ma chérie? Por acaso esta com medo? Pois non tenha. Não vim lhe fazer mal.
Dizendo isso acariciou a face de Luciane. Ela permanecia paralisada por alguma força invisível. O homem lhe abraçou gentilmente e lhe disse ao ouvido:
-Esta será sua noite ma chérie, eu lhe darei o que todo mortal deseja. A eternidade. Responda-me, você já dançou com o demônio sob o luar? Então dançarás esta noite. Mas antes lhe direi meu nome. Pode me chamar de Alexandre Henri Langois.
Essas foram suas ultimas palavras antes de encravar suas presas no pescoço de Luciane.
:: DELIRIUM 4:46 PM [+] ::
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Parte II: A Gênese.
O prazer que seguiu a breve dor era indescritível. Um êxtase tomava-lhe todo o corpo enquanto seu sangue era sugado. Então subitamente tudo cessou. Ela estava morta. Então Alexandre cortou o próprio pulso e verteu seu sangue nos lábios de Luciane. Algumas gotas foram o suficiente para reanima-la.
Eu poderia lhe contar o que aconteceu e o que ela viu enquanto estava verdadeiramente morta. Mas é algo terrível demais para qualquer um poder suportar. A maioria das crianças da noite se esquece do que viu, mas não ela. Luciane descende agora de uma linhagem de imortais lunáticos, ela se lembrará do que viu ao custo de sua sanidade, e assim como eu, ela não ousará compartilhar com ninguém. Essa era a deixa para sua esquizofrenia acordar.
Então eis que Luciane acorda para sua nova "vida". Sua visão estava embaçada. Ela segurava algo pesado. Também havia um gosto estranho mas familiar em sua boca. Ela fazia um grande esforço para respirar. Ela soltou o que estava segurando e se apoiou em um muro. Sua visão estava voltando. Ela então fechou os olhos e os abriu de novo. Então ela viu Alexandre apoiado em um muro cantarolando e olhando para a lua. Estavam em um beco escuro. Ela olhou para o chão e cambaleou para traz. Havia dois corpos no chão. Ambos totalmente pálidos. Então reconheceu o gosto que sentia, e se deu conta de que os havia sugado até a morte.
-Mas que diabos esta acontecendo aqui? Perguntou ela. Isto é um sonho, não, é um pesadelo não é?
-Au claire de la lune... Alexandre parou de cantarolar e disso calmamente ainda olhado para a lua, excuser moi mais... Isso non é um pesadelo... É a realidade... Mas se pensarmos bem a realidade non passa de um pesadelo non é mesmo?
-Você, você é louco! E o que fez comigo?
-Mademoiselle, eu sei que sou louco... Alias, você também é... E acredito que você saiba exactement o que eu fiz com você.
Ao ouvir isso Luciane percebeu que realmente sabia. Não era um pesadelo. A dor em seu peito devido ao esforço da respiração era real. O prazer que sentira antes de apagar também era. Então no desespero ela se ajoelhou e começou a chorar. Alexandre se desencostou da parede e caminhou até ela. Ele parou a sua frente e disse:
-Vamos, levante-se. Chorar não vai mudar sua nova condição.
Luciane ainda estava no chão. Ela se perguntava por que isso lhe acontecera. Ela então se levantou e enxugou as lagrimas feitas de sangue. Alexandre extendeu-lhe a mão. Ela a segurou e ele disse:
-Vamos, eu tenho muito a lhe ensinar agora. Logo você se acostumara com sua nova "vida"...
Então os dois saíram do beco e sumiram em meio às sombras.
Parte III: As Primeiras Noites.
Saindo do beco Alexandre a levou até uma mansão na zona nobre da cidade. Era uma mansão européia típica do século XVII. Havia um enorme salão de entrada. Um criado os levara até um escritório no primeiro andar. Lá encontraram uma mulher muito bela. Seus olhos eram tão azuis quanto o céu numa manha de primavera, e seus cabelos eram de um vermelho vivo, parecendo que haviam sido banhados a sangue. Ela aparentava ter por volta de 23 anos. Estava sentada numa poltrona, estranhamente todas as sombras apontavam para ela, acariciando um gato negro que ronronava alegremente. Ela fitou Luciane com um olhar de reprovação e trocou algumas palavras em francês com Alexandre. Ela não parecia muito feliz com a presença de uma estranha em sua casa. O gato então pulou de seu colo e ficou sentado ao lado da poltrona e foi se esfregar nas pernas de Alexandre. Alexandre o olhou e em seguida voltou seu olhar para a mulher e falou:
-À noite já esta acabando, e você agora precisa descansar. Siga o Stephen, ele a levara ao seu quarto. Amanhã conversaremos e eu lhe apresentarei aos moradores desta casa.
-Stephen é o criado que nos recebeu?
-Não, Antonio é o criado. Stephen é o gato. Apenas siga o gato.
Luciane ouviu então um miado vindo da porta, o gato estava lá, esperando que ela o acompanhasse. Ela saiu do recinto e fechou a porta. Do outro lado começou o que parecia ser uma discussão. O gato se esfregou em suas pernas e miou para chamá-la. Ela então seguiu o gato até o andar de cima e em seguida para um enorme quarto já arrumado para recebe-la. Enquanto o gato saia do quarto ela o agradeceu com um "Obrigado Steph". Ela não tem certeza, mas ela acreditou ter ouvido um "Disponha senhorita" logo depois. Ela rapidamente fechou a porta e observou seu novo quarto. Havia uma enorme cama ao centro, um armário, uma cabeceira, uma mesa e uma cadeira. As janelas estavam trancadas e bem lacradas. O quarto era iluminado apenas por uma vela em cima da mesa. Estava tudo silencioso agora. A discussão no andar de baixo parecia ter cessado. As sombras do recinto dançavam acompanhando a chama da vela.
O movimento das trevas era quase hipnótico. Luciane as observava dançando ao seu redor. E elas a chamavam. Numa espécie de transe ela avançou até a parede a sua frente. Sussurros emanavam da escuridão. Eles iam tornando-se mais altos à medida que ela se aproximava. As sombras começaram então se estender na direção de Luciane como braços negros querendo se libertar de sua prisão. Ela foi avançando. Os sussurros tornavam-se cada vez mais audíveis. Ela estendeu a mão e segurou um dos braços. Um frio congelante subiu-lhe o braço. Os sussurros aumentaram subitamente. Enquanto eles se silenciavam apenas uma voz continuava audível:
-Alastra-se a corrupção. Loucura inflamável que percorre minhas veias no processo acelerado das batidas cardíacas. Tento esquecer que não há vida em meu corpo, mas que falo do mesmo modo que antes - talvez mais sarcástica que outrora. Você pode lembrar-se disso daqui a um minuto. Daqui a duas horas. E eu poderei ouvir os gritos do seu quarto.
Atordoada, Luciane, soltou a mão negra e caiu. Ao abrir os olhos ela viu que tudo estava normal. As sombras não se moviam mais independentemente, apenas seguindo o ritmo da chama. Seria como se nada houvesse acontecido. Seria. Se a voz não continuasse a ecoar em sua mente.
Parte IV: Ilusões e Transformações.
Luciane se levantou apoiando-se sobre a mesa. A voz ainda ecoava em sua mente. Multiplicando-se como se o quarto estivesse cheio de pessoas a sussurrar em volta dela. Então se fez o silencio. Ela olhava assustada a sua volta. Não sabia se aquilo fora real ou se não passava de um delírio. Ela ouviu a porta se abrir. Estranhamente as sombras pararam e se voltaram para a porta. Quando olhou viu a mulher que estava no andar de baixo. A mulher a olhou da cabeça aos pés ainda com o olhar de reprovação e disse com o mesmo sotaque francês de Alexandre após um longo suspiro:
- Eu non sei porque Alex a escolheu. Non vou mentir, mas non fui com sua cara. Mas a deixarei ficar em minha casa até Alex a deixar partir. Já deve conhecer o Steph - o gato negro apareceu por traz da mulher e se esfregou ronronante em suas pernas - Eu me chamo Marie... Marie DeLombre... Agora obedeça às ordens de Alex e vá dormir um pouco...
Marie fechou a porta e saiu antes que Luciane pudesse dizer alguma coisa. O gato foi atrás. Um frio correu-lhe a espinha e por um momento teve vontade de sumir enquanto se trocava para dormir. Ela nunca saberá, mas naquela hora ela conseguiu.
Seu sono fora extremamente conturbado. Sonhos estranhos e confusos preencheram sua noite. Visões de varias pessoas, lugares e épocas invadiram sua mente. No ultimo dele ela se via envolvida pelas trevas. Do meio delas saiu Alexandre. Havia uma expressão de tristeza em seu rosto. Ele a olhava nos olhos. Lagrimas de sangue começaram a escorrer por sua face. Então ela sentiu uma dor aguda e terrível.
Ela acordara com um grito no final da tarde do dia seguinte. Levantou assustada. Olhou a sua volta, estava tudo silencioso, e levou outro susto, por um momento havia se esquecido do que acontecera na noite anterior. Fechou os olhos e passou a mão no rosto. Levantando-se da cama e foi até a porta e a abriu. Do lado de fora estava o criado encarando-a. Havia uma mistura de medo e fascínio em seus olhos. O olhar típico que um sacerdote da ao estar frente a frente com seu deus. Incomodada com aquilo ela desviou o olhar e se dirigiu para o andar de baixo. Na sala estava Alexandre sentado numa poltrona de frente para uma enorme lareira com o gato no colo. O felino miou avisando a presença de Luciane na sala e foi ao seu encontro. Alexandre se levantou e a encarou.
-Bon jour mademoiselle, ou deveria dizer bon soir? Nunca vou me acostumar em dar "boa noite" ao acordar mesmo depois de mais 200 anos. Mas enfim, pensei que fosse acordar mais cedo. Nossas mentes e nossos corpos geralmente demoram algumas semanas até se acostumar com nossos hábitos noturnos. Em todo caso, eu estava esperando você para começar a lhe ensinar a usar seus novos dons.
-Meus dons? Quer dizer virar um morcego ou coisa do tipo?
-Podemos dizer que sim... Mas você non vai se transformar em um. A menos que se esforce muito. Eu vou ensinar-lhe os que estão inatos em seu sangue. Existem varias habilidades. Marie tem o domínio sobre as sombras...
-Por isso elas estão sempre voltadas para ela?
-Sim, por isso mesmo... Bom, nós temos o poder para invadir, controlar e fragmentar mentes.
-Fragmentar mentes? Você quer dizer enlouquece-las?
-Três bien ma jeune, é exatamente isso...
-Hum... E o Steph? O que ele faz - perguntou ela brincando e apontando para o gato.
-Alexandre a olhou com um olhar cínico e retrucou - Acho melhor ele mesmo responder essa ai!
Ela olhou assustada para o gato negro que se contorcia e crescia. Ele soltava uma espécie de miado misturado a um gemido de dor. Luciane deu uns passos para traz enquanto via um híbrido de felino e humano. Os pelos pareciam entrar na pele da criatura. A transformação parecia terrivelmente dolorosa. Os sons de sofrimento emitidos pelo ser a sua frente lhe davam calafrios.
No final da transformação o gato havia se transformado em um homem alto e muito magro trajando um sobretudo. Seus cabelos negros caiam-lhe até os ombros. Suas feições felinas lhe davam um certo charme. Ele arrumou o cabelo mostrando orelhas pontudas. A única coisa que pareceu não se modificar foram seus olhos. Ainda eram amarelos e fendados. Ele se aproximou de Luciane, fez uma reverencia e anunciou com um forte sotaque britânico:
-Greetings my darling, Stephen Howard ao seu dispor!
:: DELIRIUM 4:44 PM [+] ::
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Parte V: Os Ouvidos do Morcego.
Luciane observava com uma mistura de curiosidade e medo o homem a sua frente. O sobretudo se mexia como se houvesse uma cauda abando por debaixo dele, e de fato havia. Alex a olhava com um sorriso sádico estampado na face como se ele quisesse que esta fosse exatamente a reação dela. Stephen sentou-se na poltrona onde antes estava Alex e começou a observa-la. Seus olhos amarelos pareciam ter enfeitiçado a garota que os encarava. Então Alex tomou a palavra ainda com o sorriso sádico nos lábios:
-Ficou assustada ma chérie?
-Mas... Mas como ele fez isso?
-Well my dear, eu posso ensina-la... Mas apenas quando dominar melhor o poder do sangue. Existem outras formas alem da animal... Como esta!
Subitamente com um "puf", Stephen tomou uma aparência etérea, como se fosse fumaça. A neblina então voltou a de condensar e voltou a se solidificar.
-Agora eu já dei meu little show, vou deixa-los à vontade. Excuse-me...
-Merci mon ami. - Disso Alex enquanto Stephen deixava a sala, então se voltou para Luciane - Trés bien ma petite, preste atenção ao que vou lhe dizer... Non é difícil, basta se concentrar...
-Me concentrar? Como?
-Basta sentir sua mente sair do seu corpo... Sinta-a lutando com a psique do seu alvo. Faça a loucura fluir da sua mente e do seu sangue na direção de quem quer afetar. Sussurre se preciso, grite se necessário, mas sinta as estruturas frágeis de sua vitima se esfarelando ao seu comando, como castelos de areia que se desfazem ao toque. No começo você apenas mexera com as emoções, acentuando seus medos e paixões, depois com seus sentimentos e sentidos e quando tiver dominado a técnica você trará a tona todos os traumas e desejos escondidos de presa. Vamos, tente em mim. Non vou reagir.
-Mas eu... Bom... Vou tentar então.
Luciane então fechou os olhos e começou a se concentrar. O silencio do recinto logo foi quebrado por vozes que sussurravam. Elas se tornavam mais audíveis à medida que ela tentava canalizar sua mente para fora do corpo. Eram apenas duas vozes, elas dialogavam, era como se conversassem bem ao lado de Luciane. Então ela reconheceu as vozes e os sotaques, eram Marie e Stephen.
-Eu já disse que o Alex vai ter que se livrar dessa garota!
-Você precisa deixar de ser ciumenta my dear. Alex deve ter visto algum potencial na garota.
-Eu non sou ciumenta, Stephen! Apenas non gosto dessa garota! E eu tenho os meios certos para convence-lo a destruí-la!
-Oh God... Well, você é quem sabe my darling... Você chega a ser mais maníaca que ele desse jeito...
Rapidamente ela abriu os olhos, não sabia se o que havia ouvido era real ou se sua mente lhe pregava uma peça. Mas ao abri-los ela viu Alexandre encarando-a, mas dessa vez havia uma espécie de luz azulada e bem pálida envolvendo-o. Assustada com aquilo Luciane perdeu a concentração e as cores se dissiparam.
-O que foi ma chérie? - perguntou Alex - Você me parece assustada.
-O que era esse azul que envolvia você?
-Azul que...? Ah sim... Acredito que tenha visto minha aura... Fique feliz... Você conseguiu usar um de seus poderes... Apenas não foi o que tentei lhe ensinar... O que você acabou de usar serve pra aumentar os sentidos. Com ele você ouve e vê melhor num primeiro momento. Depois você pode ir alem das possibilidades mortais... Verá a alma da pessoa, ouvir seus pensamentos... Até que seus sentidos sobrepujarão seu corpo e vagarão livremente pelos planos astrais. Mas... Sinto que há algo de estranho em seus olhos... Viu algo mais?
-Não... Não vi mais nada não... Devo estar cansada... Esta acontecendo tudo tão rápido...
-Entendo... Então descanse mais um pouco... Voltarei mais tarde...
-Obrigada...
Luciane observou Alex deixando o recinto e foi se sentar na poltrona onde ele estava antes com Stephen na forma de gato e ficou olhando para a lareira apagada. As palavras de Marie estavam gravadas em sua mente. Ela pensaria que não passava de uma alucinação se Alexandre não lhe tivesse falado que ela poderia ampliar seus sentidos. Restava apenas esperar, Luciane afundou na cadeira e em seus pensamentos. Então elas voltaram, as vozes sussurrantes em sua mente, e elas a levaram para longe.
Parte VI: Visões do Alem.
Luciane estava longe, embalada pelas vozes e a deriva em seus pensamentos. Os sussurros em sua mente não mais a assustavam, pelo contrario, pareciam acalma-la. A lareira antes apagada estava agora acesa. As chamas dançavam suavemente enquanto mudavam constantemente de cor. O fogo hipnótico a forçava a fechar os olhos. A visão de Luciane começou a embaçar, um sono pesado tomava conta de seu corpo. Ela fechou os olhos. Estranhamente em vez de escuridão estava tudo claro, como se uma enorme tela branca tivesse sido posta diante de seus olhos. Concentrou-se em decifrar as palavras que lhe eram sussurradas. Tudo o que ela conseguia ouvir eram frases desconexas e sem sentido aparente. Algumas das vozes pareciam conversar. Outras ganhavam formas, eram apenas silhuetas, possivelmente o contorno de seus respectivos donos. Então alguém a chamou, não era uma voz conhecida, era aguda e infantil. Luciane se virou e viu a silhueta de uma garotinha de pé diante dela. Ela seria apenas uma sombra se não fosse possível ver as sardas em seu rosto e seus longos cabelos vermelhos como sangue. Não se podia ver seus olhos, porém o sorriso branco, exibindo suas presas, fazia um forte contraste com o etéreo que se compunha à menina. Ambas se encararam longamente até a garotinha tomar a iniciativa. Sua voz infantil era suave e tinha um tom sereno:
-O que faz aqui minha querida?
-O que... Eu não faço a menor idéia... Nem ao menos sei onde estou... Isto aqui é um sonho não é? Apenas me lembro de adormecer antes de vir pra cá...
-A garota deu uma risada e aumentou seu sorriso - Esta deve ser sua primeira vez na Rede, estou errada minha querida? Isto não é um sonho... São vários! Este é o ponto de encontro de todos seus irmãos e irmãs... Porem não é um lugar físico... Aqui é onde todas nossas mentes de convergem... Quando um vira centenas... E centenas viram um!
-O que? Como assim? Afinal, isto é um sonho ou é real?
-Um sonho é uma criação da mente, mas se a mente é real o que não impede de que os sonhos também o sejam? Você esta aqui, e seu corpo esta repousando em um sofá à frente de uma lareira. Se seu corpo for destruído você passara a viver aqui... Mas se você era real e passa a viver em um sonho, como saber se você ainda é real ou não? A realidade é muito relativa minha criança... Você pode ver o que eu não vejo e vice e versa... Mas você verá isso... Logo seus olhos serão abertos... Ele nos deu algo que poucos ousam ter... A liberdade!
-Como... Como sabe onde eu estava? Você esta me deixando mais confusa do que já estava! E quem é "ele"?
-Ele é... Como poderia dizer minha criança... É um dos 13... Um dos netos do primeiro... Aquele acima amaldiçoou o primeiro com a imortalidade... E este último abençoou seu neto, nosso pai, com a liberdade! Nossa percepção esta acima da de qualquer criatura existente. Rompemos os grilhões da realidade e nos libertamos! Nossa sanidade foi sacrificada no processo... Mas esse é um preço muito baixo a se pagar para ser livre.
-Sacrificar a sanidade? Mas eu não sou louca!
-Aí que se engana minha querida... Você é. Apenas não percebeu ainda...
-Eu...
-Você é tão insana quanto eu ou quanto seu senhor Alexandre...
-Alexandre, como você o conhece? Quem é você afinal?
-Eu o conheço, pois sei quais são aqueles que se originaram de mim... Eu sou a filha direta de nosso pai... Alex é meu neto... Ele é cria de uma cria minha... Logo você também descende de mim...
-Então foi por isso que me chamou aqui?
-Eu não a chamei, apenas esperei que viesse... Você tem um poder que não pode ser desperdiçado...
-Não pode? Mas a tal da Marie quer me matar... Não acredito que eu tenha chances contra ela ou contra nenhum outro ainda!
-Aquela que controla as sombras não é mais poderosa que você... Apenas mais experiente... Mas acredito que o futuro lhe reserva outras surpresas...
-Que tipo de surpresas? Vão me matar! É tudo o que preciso saber! Eu vou fugir de lá!
-Não podem te matar minha querida, você já esta morta se esqueceu? Mas talvez as coisas mudem de lado... Vá embora. Agora volte e acorde... Estarei aqui caso precise... Até mais minha criança!
-Eu não quero voltar!
Antes que pudesse fazer qualquer coisa, Luciane se sentiu sugada por uma força invisível, então tudo escureceu. Ao abrir os olhos ela estava novamente sentada na poltrona à frente da lareira apagada. Então ela percebeu que as sombras estavam todas voltadas para um mesmo lado. Rapidamente ela se levantou e olhou para a porta, Marie estava lá, observando-a, então se virou e partiu.
:: DELIRIUM 4:44 PM [+] ::
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Parte VII: Aparições.
Luciane seguiu o conselho da garota ruiva e permaneceu com Alex. Oito meses se passaram desde então. Com o tempo seu olhar ficara distante, como se ela visse e coisas que não estavam realmente onde olhava. Ela agora já controlava suas novas habilidades, e treinava para aperfeiçoa-las. Ela também já conhecia o suficiente da real sociedade vampírica para poder se relacionar com outros Membros. Sua relação com Marie, porem, não melhorou, as indiferenças entre ambas apenas pioraram, muitas vezes chegando a um confronto físico. O pobre criado, numa tentativa de separa-las, acabou por ser morto. Apenas por causa de Alex que nenhuma empalou a outra durante o sono. Stephen com seu jeito todo esquisito apenas observava-as ronronando em algum canto.
Luciane caminhava sozinha pela cidade. O céu estava estranhamente limpo, permitindo ver as estrelas. A lua brilhava cheia, maior que o normal e numa tonalidade avermelhada. Voltava de uma visita à casa de seus últimos amigos mortais. Inventara várias desculpas para explicar o porque de ter desistido de seu curso e por passar semanas sem dar noticias. Ela sentia um dos pesos da imortalidade, enquanto ela permaneceria intocada pelo tempo, seus amigos e familiares pereceriam e retornariam ao pó.
Sentia fome, e ela aumentava a cada passo. Luciane desviou-se de seu caminho e se dirigiu a uma rua pouco iluminada onde se encontravam garotos e garotas de programas. A rua estava pouco movimentada e havia apenas um rapaz, apoiado em uma placa numa das varias esquinas. Luciane se aproximou furtivamente dele. Ela estava a menos de um metro de distancia do rapaz e ele ainda não havia notado sua presença até que ela falou:
-Oi...
- O rapaz levou um susto, rapidamente desencostando-se da placa e olhou para Luciane - Opa! Desculpa gata, nem tinha te visto ai. E ai, rola um programinha?
-Sorrindo ela se aproximou do jovem com toda sua sensualidade imortal - Você cobra quanto?
-Olha, eu cobro cem pilas mais o dinheiro do táxi, caso a gente vá pra muito longe.
-Não se preocupe, não iremos a lugar nenhum, pode ser aqui mesmo - ela se aproximou mais do rapaz, encostando seu corpo no dele. Ela viu uma expressão de surpresa na face do garoto de programa, então aproximou seus lábios dos ouvidos dele e sussurrou - Agora me de prazer! Antes que o rapaz pudesse ter qualquer reação, Luciane encravou suas presas em seu pescoço. Ela entrou em êxtase enquanto sugava o fluido adocicado da artéria do jovem. Sua pele pálida adquiria uma tonalidade rosada e o frio dava lugar a um calor morno e agradável. Ela ouvia o pulsar do coração do garoto desacelerar, ele já estava inconsciente, então ela parou. Lambeu a ferida para fecha-la, largou o rapaz ali mesmo e continuou seu caminho.
Luciane caminhava agora por uma rua pouco iluminada e deserta. Então algo a fez parar diante da entrada de um parque. Ela ouvira vozes. Hesitante, adentrou-se no parque escuro. Ela não sabia se as vozes estavam realmente lá ou se vinham de sua mente, mas seguiu-as do mesmo jeito. Chegando na parte central do parque, marcada por uma piscina de areia, as vozes se multiplicaram, agora vinham de todos os lados, para então se tornarem sussurros. Desanimada, se virou para partir, mas algo a fez olhar para traz. Então ela viu um rapaz que não estava ali antes. Aparentava ter no maximo 19 anos, trajava calças jeans rasgadas, uma camiseta preta e algumas correntes. Os cabelos negros e despenteados caiam-lhe sobre o rosto. Estava no meio da areia encarando Luciane com olhos azuis e serenos. Ela ameaçou se aproximar, mas uma voz aguda e infantil lhe chamou a atenção:
- Não adianta se aproximar dele minha querida, ele não esta ai... Ele nem ao menos existe... Ainda...
Luciane olhou para a direção de onde vinha a voz, a forma etérea da garotinha estava sentada no balanço. Ela ia para frente e para traz, com seus cabelos ruivos acompanhando seu movimento. Rapidamente ela voltou a olhar para a piscina, mas não havia mais ninguém lá. Virou-se para o balanço e olhou a menina se balançando:
-Quem era ele?
-Não sei se devo dizer...
-Por que não? O que quis dizer com: ele não existe ainda?
-Que ele ainda não existe oras... Que outro sentido poderia ter?
-Não sei... Mas...
-Apenas lhe direi que ele ainda não nasceu... E isso demorará um pouco para acontecer...
-Mas o que significa de ele ter aparecido para mim?
-Um sorriso branco apareceu das sombras que formavam a garotinha - Isso significa que seu poder já esta acordando...
-Meu... Poder? Mas que poder?
-Isso você logo verá minha querida... Agora acho melhor você voltar para a casa de Alex... E apenas um conselho, cuidado com as trevas... Até logo minha querida...
Um clarão se fez, cegando Luciane, que logo sentiu uma força jogando a no ar. Ela acordou poucos segundos depois no meio da piscina de areia. Então se levantou e limpou a areia da roupa. Olhou em volta uma ultima vez, então retomou seu caminho de volta.
Parte VIII: Segredos de Outros Tempos.
Lá estava ela novamente, de volta a mansão bela e imponente, mas que parecia perdida no passado. A casa parecia deserta, nenhuma luz emanava das janelas e o silencio era quase total. Apenas o assovio do vento gelado, acariciando a face pálida de Luciane, era audível.
Ela atravessou a portão e caminhou lentamente pelo jardim. A enorme lua vermelha ainda brilhava acima dela. Continuou a caminhar até parar diante da porta. Ela olhou seu reflexo distorcido na maçaneta, após a transformação ela pensou que nunca mais se veria num espelho, mas apenas alguns poucos sofrem esse problema. Ao tocar a maçaneta para abrir a porta Luciane sentiu um estranho arrepio que lhe desceu pela espinha. Ignorando-o ela abriu a porta e entrou. A escuridão tomava conta da casa, apenas a luz avermelhada da lua penetrava pelas janelas.
Lentamente ela se dirigiu do hall para o salão principal, onde havia a lareira. O recinto estava mais escuro que o anterior. Sentira o mesmo arrepio de antes lhe descendo pela espinha, algo estava errado. Olhando para a poltrona à frente da lareira ela viu um vulto sentado. Com cautela, Luciane se aproximou por traz da cadeira, o vulto cochichava algo, como se falasse consigo mesmo. Não era uma voz familiar, então ela se aproximou o suficiente para ouvi-la. Apesar de ver apenas numa pessoa, Luciane ouvia duas vozes dialogando:
-Sim meu caro! Prosseguiremos com o plano!
-Mas...
-O que foi? Vai recuar agora? Agora que descobrimos como faze-lo?
-Você é um psicopata... Ele nos criou... Por que quer destruí-lo?
-Psicopata? Talvez! Mas eu não quero faze-lo apenas pelo prazer de mata-lo.
-Então porque?
-Primeiro, por que você sabe muito bem o que ele fez com sua ultima cria não sabe meu caro? Então, antes ele do que nós!
-Sim eu sei... Mas...
-E em segundo, fazendo isso nós absorveremos seu poder! E ficaremos mais poderosos!
-Sim... Mas e quanto aos riscos?
-Que riscos! A recompensa vale qualquer risco!
-Seremos caçados pelo resto de nossas não-vidas... Você sabe que é um pratica proibida...
-Não me importo! Esconderemos o corpo! E fugiremos! Nunca nos acharão!
-Eu ainda sou contra...
-Para de ser chato! Vai valer a pena! Confie em mim!
-Eu sei que vou me arrepender disso...
Luciane escutava a conversa, confusa, procurando de onde vinha a segunda voz, já que via apenas uma pessoa. O vulto se levantou e acendeu a lareira. Então ela pode ver um rapaz, de aproximadamente 18 anos, seus cabelos eram negros e rebeldes. Ela notou que de fato estava sozinha com ele na sala. Ele se virou e olhou para a porta. Seus olhos eram de um tom verde claro. Olhava fixamente para a porta:
-Ele esta vindo...
O rapaz então piscou e seus olhos mudaram de cor, passaram de verde claro para castanho escuro.
-Ótimo! Agora fique quietinho e deixe que eu faço o trabalho sujo!
Luciane olhou mais confusa ainda à cena, o jovem falava consigo mesmo. Então ela ouviu passos atrás dela. Ao se virar viu Alex, mas ele estava diferente. Sua expressão era séria e seu olhar era severo. Nenhum dos dois parecia ter percebido a presença de Luciane. O rapaz olhava Alex com um sorriso sádico estampado no rosto, até que disse:
-Boa noite meu senhor! Como vai?
-Non tente ser simpático! Porque você quer falar comigo? O que você andou aprontando dessa vez?
-Aprontando? Eu? Nada não! Só queria conversar mesmo.
-Tire esse sorrisinho do rosto! Ele me irrita!
-Peço perdão se ele te irrita, mas é que eu estou muito feliz no momento! E depois eu nunca vou conseguir ficar sério com você falando com esse sotaque!
-Então vá direto ao assunto.
-Olha Alex... É o seguinte - disse o rapaz se aproximando de Alex - Eu e o meu amiguinho aqui chegamos a uma decisão... Infelizmente teremos que partir sabe? Não da pra ficarmos presos nessa mansão pelo resto da eternidade... Por maior que ela seja, nos precisamos de mais espaço!
-E você quer que o deixe partir? Você ainda non está pronto, non controla sua Sede, nem seus impulsos! Você deixa rastros demais!
-Acredite em mim Alex... Não deixarei nenhum rastro dessa vez! Adeus... Meu senhor!
Dizendo isso, os olhos do rapaz tornaram-se completamente vermelhos e adquiriram uma luminescência fosforescente, e suas unhas tornaram-se garras. Mas antes que Luciane pudesse fazer alguma coisa ou ver o que aconteceu a seguir, uma forte luz branca e ofuscante surgiu da lareira e uma força puxou-a para traz.
Ela estava parada em pá, sentia algo arredondado e gelado em suas mãos. Ao recobrar a visão se viu na frente da porta, ainda fechada, segurando a maçaneta. Permaneceu parada por alguns minutos, tentando se lembrar com detalhes o que acabara de ver. As visões estavam se tornando mais freqüentes, ela não conseguia mais distinguir o que era real e o que não era. Então tomou coragem e abriu a porta. Como antes, a casa era tomada pela escuridão, apenas a luz avermelhada da lua penetrando pelas janelas. Ela repetiu seus passos e se dirigiu até o salão da lareira. Seu olhar se dirigiu primeiramente para a poltrona. Então ela parou ao ver um vulto sentado e olhando para a lareira. Luciane observava paralisada a silhueta se levantando lentamente e acendendo a lareira. As sombras do salão subitamente se voltaram na direção da pessoa. Era Marie. Ainda de costas para Luciane disse:
-Espero que tenha feito um ótimo passeio... Pois foi seu ultimo!
Então ela se virou, as sombras do recinto fluíram para debaixo dela, como se fossem liquidas, e se ergueram como enormes tentáculos negros, e partiu com tudo para cima de Luciane.
:: DELIRIUM 4:44 PM [+] ::
...
Parte IX: O Confronto.
Marie investira violentamente os tentáculos negros contra Luciane que se esquivara do primeiro no ultimo instante. Mas antes que ela tivesse tempo de reagir, um segundo tentáculo a atingiu em cheio no estomago, fazendo-a voar e colidir com a parede oposta á lareira. Tentando ignorar a dor Luciane se levantou, apenas para receber mais dois golpes, o primeiro do lado esquerdo da caixa torácica, quebrando-lhe algumas costelas, e o segundo no rosto, fazendo-a girar nos próprios calcanhares antes de cair novamente. Ela permaneceu no chão por alguns segundos, pensando no que fazer. Sabia que não teria chances contra Marie em um confronto indireto, teria de chegar mais perto e ataca-la diretamente. Aos se levantar Luciane ficou de costas para Marie, que logo mandou mais um tentáculo ataca-la. Então num movimento rápido, Luciane se virou e cortou, com a mão, as trevas que tentaram atingi-la. Ela tinha agora um aspecto selvagem, seus olhos estavam vermelhos e com uma luminescência fosforescente, suas unhas deram lugar a garras e ela exibia suas presas que também pareciam maiores.
-Vejo que Stephen lhe ensinou suas técnica non? Então vai reagir, non é? Ótimo, assim meu remorso será menor!
-Luciane apenas sorriu - Sabe Marie, eu não sei porque não gosta de mim, mas quer saber? Eu não to nem aí pro motivo! Só sei que eu vou desfigurar essa sua carinha linda e ver se você continua falando com esse seu sotaque ridículo depois!
Sem esperar alguma resposta de Marie, Luciane investiu com toda velocidade e força para contra ela. Marie deu uns passos para trás e levantou as sombras para formarem uma barreira e protege-la. Em vão, logo o escudo fora rasgado por Luciane que pulara visando o rosto de Marie, e arranhando-o com tanta força que ela perdeu o equilíbrio e caíra. Um sangue grosso e escuro começara a escorrer dos cortes, e Marie olhava sua agressora com um olhar de puro ódio, lembrando o de um animal selvagem, enquanto as sombras voltaram a se juntar aos seus pés.
Ambas se encararam longamente, uma apenas esperando a outra agir. O vento assoviando do lado de fora e o crepitar das chamas na lareira eram os únicos sons audíveis no momento. O sangue da face de Marie agora pingava no chão, e uma dor aguda fizera Luciane finalmente perceber as costelas quebradas. Então como se fosse um sinal, o uivo de algum cachorro de rua as despertara, e ambas avançaram para atacar. Mais três tentáculos de sombras investiram contra Luciane, que desviara de todos, apesar da dor que limitava seus movimentos, e mais uma vez tentara arranhar Marie, mas antes de alcança-la outro golpe a atingira pela esquerda, fazendo a cair no chão e se encolher gemendo de dor.
Marie se aproximou, as trevas ergueram Luciane do chão pelo pescoço e, embora não respirasse mais, sentia-os sufocando-a. Então sentiu como se varias lanças perfurassem seu corpo, ao olhar para baixo viu filetes negros penetrando sua carne.
-Eu devia empala-la e deixa-la para queimar sob o Sol! - disse Maire - Mas acho que eu gostaria de ver a cara de meu querido Alexandre quando ver que a sua linda cria fora morta! Eu estava conseguindo persuadi-lo há algum tempo para que ele mesmo o fizesse, mas... Eu non posso desperdiçar essa chance, non é mesmo?
Luciane mexeu a boca, mas nenhum som saiu, estava perdida, sabia que se não fizesse alguma coisa rápido ela iria morrer ali mesmo. Ela fechou os olhos pensando que não havia mais chances, então tudo cessou, não ouvia nem sentia mais nada. Ao abri-los novamente, ela o viu, ao lado da lareira, o garoto da piscina de areia, os cabelos negros e despenteados caindo sobre o rosto, mostrando apenas os olhos azuis fitando-a tristemente. Então se virou e sumiu no ar.
Os sentidos de Luciane começavam a voltar, a dor voltava aos poucos em seu corpo, juntamente com sua raiva. Então juntando todas as forças que ainda possuía, partiu as trevas que a perfuravam e pulou em Marie, aplicando-lhe uma rápida e violenta seqüência de golpes. Marie caíra, mas logo se levantou, suas vestes estavam rasgadas, deixando o abdome e parte do seio a mostra. Rapidamente as sombras voltaram a se dirigir na direção dela quando:
-Parem com isso, as duas!
Ambas pararam onde estavam e se viraram para a porta, lá estavam Alex, com uma expressão séria e um olhar severo, e logo atrás dele Stephen.
-O que vocês duas pensam que estão fazendo? Será que eu ou o Steph não podemos deixa-las sozinha por um instante que vocês já tentam se matar?
-Mas Alex - começou Marie - eu estava apenas...
-Non quero saber, Marie!
Ambas se encararam com um olhar de ódio, suas feridas já começavam a se fechar, então Marie lançou um olhar cínico para Luciane e começou a falar algo em francês para Alex. Ele apenas se virou para a porta e disse:
-Luciane, venha comigo, vou fazer algo que eu já deveria ter feito ha algum tempo.
Ela abaixou a cabeça e o seguiu, olhou uma ultima vez para Stephen, que lhe deu um tímido sorriso, e em seguida pra Marie, que a olhava com um ar de vitória. Luciane apenas seguiu Alex, sabendo, de alguma forma, que nunca mais voltaria.
Parte X: Réquiem Sob O Luar Escarlate.
Alex e Luciane caminharam durante vários minutos, sem dizer nada um ao outro. Ela sentia suas entranhas se contorcendo de ansiedade, tinha certeza de que seria destruída assim que parassem. Apesar de suas feridas estarem quase todas fechadas ela ainda se sentia cansada por causa da luta com Marie. Durante todo o caminho Luciane ouviu risos abafados na escuridão e sentia como se vários dedos apontassem para ela. Alex apressou o passo, a lua, que ainda brilhava com sua fraca luz avermelhada, descia cada vez mais no céu, e alguns minutos mais tarde, pararam.
Ela reconheceu aquele lugar, era onde Alex a havia abordado e a transformado no que era agora. Então ele se virou, ela mantinha a cabeça baixa como uma criança envergonhada. Ela lentamente levantou os olhos para olha-lo, achava que o encontraria com a mesma expressão séria e o olhar severo que tivera em sua ultima visão, mas ele estava sereno e sorrindo, lembrando claramente uma imagem paterna. Ela o encarou com uma certa surpresa, "ele quer me pegar desprevenida, mas isso não vai acontecer", pensou ela. Como se ele tivesse lido seus pensamentos ele continuando a sorrir disse:
-Non se preocupe minha querida, non farei o que Marie quer que eu faça, non a destruirei.
-Eu não...
-Eu sei que estava pensando isso, non precisa esconder. Ainda tenho esperanças de que Marie pare com essas crises de ciúmes...
-Mas... Se não ira me matar porque viemos até aqui? Justo onde nos conhecemos?
-Alex riu - Haha! Non foi aqui que nos conhecemos minha querida, nos encontramos por acaso há alguns anos atrás, obviamente non se lembra da ocasião, mas venho observando-a desde então.
-Alguns anos? Por que não me disse antes? E por que eu?
-Eu non achei que fosse necessário dizer. E eu escolhi você por que me foi dito que você era merecedora da imortalidade.
-Foi dito? Por quem?
-Uma garotinha de cabelos vermelhos como o fogo me disse... Acredito que já a conheça, ela me disse que seu dom da Visão seria de uma precisão excepcional!
-Você diz que as visões que eu tenho são na verdade...
-Premonições? Pensei que já tivesse descoberto isso, embora algumas possam ser apenas fruto de sua mente... Eu senti sua mente de rompendo durante a transformação... Pensei que se tornaria mais evidente com o tempo, mas estava enganado...
-Eu não sei o que dizer...
-Non diga nada, apenas vire-se e parta, non irei mata-la como já disse, porem eu teria sérios problemas com Marie se ela souber disso...
-Sim, claro... Mas a propósito... Por que esta com Marie?
-Alex sorriu - Podemos estar mortos e carregarmos a alcunha de monstros chupadores de sangue, mas a verdade é que ainda detemos vários sinais de nossa humanidade... Portanto, mesmo que ele non bata mais, ainda temos um coração, e non podemos controla-lo...
-Entendo... Irei embora então...
Luciane se precipitou para ir embora, então viu no final da rua, o rapaz de olhos azuis olhando-a com um sorriso no rosto. Apesar de ter a aparência de um cadáver, seus olhos estavam exibiam mais vida que das outras vezes que ela o havia visto. Eles se olharam por algum tempo, então logo por traz dele saiu o jovem de sua ultima visão, ele caminhou em sua direção, os olhos verdes e tristes logo se tornaram castanhos e cruéis, ele passou ao lado de Luciane na direção de Alex, ela se virou para vê-lo, mas havia sumido, atrás dela havia apenas Alex a olhando ainda com a expressão paterna, ela olhou por cima do ombro para verificar se o outro ainda estava ali. Ele ainda a olhava com um sorriso no rosto e estendeu a mão para que ela a segurasse.
-O que esta vendo minha querida?
- Luciane tornou a encarar Alex e ele pode ver o único sorriso que ela dera desde a transformação - Eu? Estou vendo o futuro, e ele me chama.
-Então vá minha querida, siga seu destino... Espero que nos encontremos novamente.
-Também gostaria... - Então seu sorriso sumiu novamente - Antes que eu me esqueça... Por favor, Alex... Tome cuidado com aquele que possui duas almas...
-Aquele com duas almas? Caso encontre alguém assim eu tomarei... Obrigado minha querida agora parta, dentro de algumas horas o Sol nascera novamente... Adeus...
-Obrigada por tudo Alex... Adeus...
Então Luciane se virou, o rapaz permanecia parado, ele se virou para partir e fez um sinal com a cabeça para que ela o seguisse e foi embora. Então deu uma olhada para Alex e seguiu na mesma direção do jovem, até sumir completamente na escuridão da noite.
:: DELIRIUM 4:43 PM [+] ::
...
Prólogo: O Amanhecer.
Alex fez lentamente o caminho de volta. Havia esperado Luciane sumir completamente de vista antes de partir. Chegou na casa faltando menos de meia hora para os primeiros rios do Sol de revelarem. Encontrou Stephen cantarolando alguma cantiga inglesa enquanto terminava de arrumar a destruição causada pela briga, então olhou sorridente para Alex disse:
-Acho que precisamos de um novo criado, don¿t you think?
-Parece que sim... Vamos, o Sol logo ira se por.
-Antes me responda my friend... Vai mesmo prosseguir com o seu plano?
-Vou sim... Afinal, o garoto é descendente de meu irmão non é? Isso significa que minha família mortal ainda existe... Por que, acha que tem algum problema com ele?
-I don¿t know... Mas algo não me cheira bem... E não é o fato de estarmos mortos...
-Bom, mas é algo que eu quero fazer, non há como me fazer voltar atrás...
-Well, if you say so... E quanto a Luciane... Você a matou mesmo? Acredito que Marie gostaria de ver alguma prova de que você fez mesmo o trabalho sujo...
-Uma prova? Sim, me esqueci deste detalhe... Eu a deixei para queimar no Sol... As únicas provas serão suas cinzas!
-Não vou questiona-lo mais...
-Ótimo... O Sol logo sairá, vamos nos deitar...
Àquela hora, Luciane já estava consideravelmente longe, se abrigara no covil de um dos poucos Vampiros que conhecia e confiava. O dia nasceu e correu normalmente para os mortais, ignorando completamente a sociedade noturna com quem compartilham a cidade, e o Sol traçou lentamente seu arco nos céus até que, mais uma vez, chegou a hora do anoitecer.
FIM
:: DELIRIUM 4:43 PM [+] ::
...
:: Quinta-feira, Outubro 14, 2004 Comments: ::
Mais um meu ... pra nao deixar esse blog muito tempo desatualisado ...
Sem titulo - Delírium
Perdido nas trevas.
Vago lentamente
A escuridao a minha frente
Destroi meu espirito.
Procuro sem cansar
Um lugar para ficar.
Pois eu sou a sombra,
A tristeza, a morte,
O amor e a dor,
Perdido no mundo
Sem rumo nem destino.
Descrevendo em versos
Os fragmentos de minha alma.
Nao!
Esqueça!
Ingnore as lagrimas
Deslisando em minha face.
E nao pergunte quem sou,
Pois quem mais deseja sabe-lo,
Sou eu mesmo ...
:: DELIRIUM 7:10 PM [+] ::
...
:: Quarta-feira, Setembro 15, 2004 Comments: ::
Bruno "Delírium" Langlois Alves de Souza
Nascimento: 13/04/1986
Morte: ??/??/20??
"Eu sou a sombra, a tristeza, a morte, o amor e a dor. Perdido no mundo sem rumo nem destino. Descrevendo em versos os fragmentos de minha alma"
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DÚVIDAS - Delírium
Responda-me meu senhor!
O que foi que fiz?
Por que fazes sofrer?
O que foi que fiz?
Para privar-me do amor?
Pelo que estou pagando?
Responde-me senhor!
Se morri e estou no inferno!
Que criatura merece
Sofrimento igual ao meu?
Pelo que estou pagando?
Pago pelos meus pecados?
Sofro por ter amado?
Por ter conhecido o amor?
O que foi que fiz
Para receber seu castigo?
É por sentir demais?
Se for tire isso de mim!
Não quero mais sentir!
Não quero mais sofrer!
Quero ser livre,
Fechar os olhos
E sonhar eternamente...
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ONDE ESTÁ - Delírium
Onde está? Onde está?
Minha felicidade fugiu
A alegria sumiu
Há agora um vazio
Apenas solidão e frio
Onde está? Onde está?
O calor da velha chama
Nos corações de quem ama
E sozinho em minha cama
Penso apenas na bela dama
Onde está? Onde está?
O fogo de meu amor
Dando-me seu calor
Seguindo-me onde for
E acalmando minha dor
Onde está? Onde está?
A vontade foi perdida
Aumentando a ferida
Minguando minha vida
Anunciando minha partida
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A QUINTESCENCIA - Delírium
Almas tortas e partidas
Um corpo fraco e mortal
Vidas falsas e iludidas
Desejando apenas o final
A primeira ingênua e fútil
Fria, intocável e arrogante
Uma mente vazia e inútil
Inabalada pelo que ha adiante
A segunda é a de menos sorte
Largada triste na escuridão
Mergulhada em trevas e morte
Sentindo apenas a solidão
Vil e cruel é a terceira
Caótica, sádica e infernal
De todas é a mais traiçoeira
E selvagem como um animal
A quarta é a mais ardente
Mas a luxuria é sua dor
Pois é solitária e carente
Buscando eternamente por amor
Quem vos escreve é a quinta
De todas é a mais sentimental
Usando lagrimas como tinta
E seu sangue como ponto final
Essas mentes totalmente destruídas
Cinco almas que nunca se unirão
Tocando sempre em frente suas vidas
Aguardando o momento em que sumirão
:: DELIRIUM 10:28 PM [+] ::
...
:: Sábado, Setembro 11, 2004 Comments: ::
Álvares de Azevedo
Nascimento: 12/09/1831
Morte: 25/04/1852
"...e o gênio traz sempre um sinal que se reconhece em toda a parte [e em qualquer tempo] --- uma auréola na fronte que brilha sob todos os firmamentos, uma senha e um ataque iramita que se traduz em todas as línguas". [In: Poemas Malditos] De acordo com muitas fontes, Álvares de Azevedo, considerado da época do Romantismo, deixou posição marcada por forte dualidade:o viver no sonho, ou tentando agarrar-se a ele e em suas etéreas dimensões. E o viver marcado pelo desejo de ter sempre fincados os pés no chão. E como se lhe faltasse esse chão, traça em sua Poesia um retrato do que traduziam as " duas almas que moram nas cavernas de um cérebro mais ou menos de poeta" -- como disse ele mesmo.[E.M.]
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LÁGRIMAS DE SANGUE - Álvares de Azevedo
Ao pé das aras no clarão dos círios
Eu te devera consagrar meus dias;
Perdão, meu Deus! perdão
Se neguei meu Senhor nos meus delírios
E um canto de enganosas melodias
Levou meu coração!
Só tu, só tu podias o meu peito
Fartar de imenso amor e luz infinda
E uma Saudade calma;
Ao sol de tua fé doirar meu leito
E de fulgores inundar ainda
A aurora na minh`alma.
Pela treva do espírito lancei-me,
Das esperanças suicidei-me rindo...
Sufoquei-as sem dó.
No vale dos cadáveres sentei-me
E minhas flores semeei sorrindo
Dos túmulos no pó.
Indolente Vestal, deixei no templo
A pira se apagar - na noite escura
O meu gênio descreu.
Voltei-me para a vida... só contemplo
A cinza da ilusão que ali murmura:
Morre! - tudo morreu!
Cinzas, cinzas... Meu Deus! só tu podias
À alma que se perdeu bradar de novo:
Ressurge-te ao amor!
Malicento, da minhas agonias
Eu deixaria as multidões do povo
Para amar o Senhor!
Do leito aonde o vício acalentou-me
O meu primeiro amor fugiu chorando.
Pobre virgem de Deus!
Um vendaval sem norte arrebatou-me,
Acordei-me na treva... profanando
Os puros sonhos meus!
Oh! se eu pudesse amar!... - É impossível!
Mão fatal escreveu na minha vida;
A dor me envelheceu.
O desespero pálido, impassível
Agoirou minha aurora entristecida,
De meu astro descreu.
Oh! se eu pudesse amar! Mas não:
agora Que a dor emurcheceu meus breves dias,
Quero na cruz sangrenta
Derramá-los na lágrima que implora,
Que mendiga perdão pela agonia
Da noite lutulenta!
Quero na solidão - nas ermas grutas
A tua sombra procurar chorando
Com meu olhar incerto:
As pálpebras doridas nunca enxutas
Queimarei... teus fantasmas invocando
No vento do deserto.
De meus dias a lâmpada se apaga:
Roeram meu viver mortais venenos;
Curvo-me ao vento forte.
Teu fúnebre clarão que a noite alaga,
Como a estrrla oriental me guie ao menos
Té o vale da morte!
No mar dos vivos o cadáver bóia
- A lua é descorada como um crânio,
Este sol não reluz:
Quando na morte a pálpebra se engóia,
O anjo se acorda em nós - e subitâneo
Voa ao mundo da luz!
Do val de Josafá pelas gargantas
Uiva na treva o temporal sem norte
E os fantasmas murmuram...
Irei deitar-me nessas trevas santas,
Banhar-me na frieza lustral da morte
Onde as almas se apuram!
Mordendo as clinas do corcel da sombra,
Sufocando, arquejante passarei
Na noite do infinito.
Ouvirei essa voz que a treva assombra,
Dos lábios de minh`alma entornarei
O meu cântico aflito!
Flores cheias de aroma e de alegria,
Por que na primavera abrir cheirosas
E orvalhar-vos abrindo?
As torrentes da morte vêm sombrias,
Hão de amanhã nas águas tenebrosas
Vos rebentar bramindo.
Morrer! morrer! É voz das sepulturas!
Como a lua nas salas festivais
A morte em nós se estampa!
E os pobres sonhadores de venturas
Roxeiam amanhã nos funerais
E vão rolar na campa!
Que vale a glória, a saudação que enleva
Dos hinos triunfais na ardente nota,
E as turbas devaneia?
Tudo isso é vão, e cala-se na treva
- Tudo é vão, como em lábios de idiota
Cantiga sem idéia.
Que importa? quando a morte se descarna,
A esperança do céu flutua e brilha
Do túmulo no leito:
O sepulcro é o ventre onde se encama
Um verbo divinal que Deus perfilha
E abisma no seu peito!
Não chorem! que essa lágrima profunda
Ao cadáver sem luz não dá conforto...
Não o acorda um momento!
Quando a treva medonha o peito inunda,
Derrama-se nas pálpebras do morto
Luar de esquecimento!
Caminha no deserto a caravana,
Numa noite sem lua arqueja e chora...
O termo... é um sigilo!
O meu peito cansou da vida insana;
Da cruz à sombra, junto aos meus, agora
Eu dormirei tranqüilo!
Dorme ali muito amor... muitas amantes,
Donzelas puras que eu sonhei chorando
E vi adormecer.
Ouço da terra cânticos errantes,
E as almas saudosas suspirando,
Que falam em morrer...
Aqui dormem sagradas esperanças,
Almas sublimes que o amor erguia...
E gelaram tão cedo!
Meu pobre sonhador! aí descansas,
Coração que a existência consumia
E roeu um segredo! ...
Quando o trovão romper as sepulturas,
Os crânios confundidos acordando
No lodo tremerão.
No lodo pelas tênebras impuras
Os ossos estalados tiritando
Dos vales surgirão!
Como rugindo a chama encarcerada
Dos negros flancos do vulcão rebenta
Goltejando nos céus,
Entre nuvem ardente e trovejada
Minh`alma se erguerá, fria, sangrenta,
Ao trono de meu Deus...
Perdoa, meu Senhor! O errante crente
Nos desesperos em que a mente abrasas
Não o arrojes p`lo crime!
Se eu fui um anjo que descreu demente
E no oceano do mal rompeu as asas,
Perdão! arrependi-me!
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MEU DESEJO - Álvares de Azevedo
Meu desejo? Era ser a luva branca
Que essa tua gentil mãozinha aperta;
A camélia que murcha no teu seio,
O anjo que por te ver do céu deserta...
Meu desejo? Era ser o sapatinho
Que teu mimoso pé no baile encerra...
A esperança que sonhas no futuro,
As saudades que tens aqui na terra...
Meu desejo? Era ser o cortinado
Que não conta os mistérios de teu leito;
Era de teu colar de negra seda
Ser a cruz com que dormes sobre o peito.
Meu desejo? Era ser o teu espelho
Que mais bela te vê quando deslaças
Do baile as roupas de escomilha e flores
E mira-te amoroso as nuas graças!
Meu desejo? Era ser desse teu leito
De cambraia o lençol, o travesseiro
Com que velas o seio, onde repousas,
Solto o cabelo, o rosto feiticeiro...
Meu desejo? Era ser a voz da terra
Que da estrela do céu ouvisse amor!
Ser o amante que sonhas, que desejas
Nas cismas encantadas de langor!
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ULTIMO SONETO - Álvares de Azevedo
Já da noite o palor me cobre o rosto,
Nos lábios meus o alento desfalece,
Surda agonia o coração fenece,
E devora meu ser mortal desgosto!
Do leito, embalde num macio encosto,
Tento o sono reter!... Já esmorece
O corpo exausto que o repouso esquece...
Eis o estado em que a mágoa me tem posto!
O adeus, o teu adeus, minha saudade,
Fazem que insano do viver me prive
E tenha os olhos meus na escuridade.
Dá-me a esperança com que o ser mantive!
Volve ao amante os olhos, por piedade,
Olhos por quem viveu quem já não vive!
:: DELIRIUM 11:54 AM [+] ::
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:: Sexta-feira, Agosto 20, 2004 Comments: ::
*Suspiro* Por que eu tenho a impressao de isso aqui ta morrendo ... deve ser por que ninguem com execao da Lady D. entra nesse blog ... to precisando fazer mais propaganda ... soh o fotoblog ta indo pra frente ... em todo caso acabando as provas eu vo tentar voltar a atualizar isso aqio com o mesmo afinco que eu pretendia quando começei ... qualquer coisa é tudo culpa dos astros ... por Árianos tem que perder o animo tao rapido? Mas enfim ... para quem ler ... aqui vai alguma coisa do grande Augusto dos Anjos ...
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Augusto dos Anjos
Nascimento: 20/04/1884 (hum , é Áriano tambem)
Morte: 00/12/1914
Nasce Augusto Carvalho Rodrigues dos Anjos em 20 de abril de 1884, na Paraíba. Um dos poetas brasileiros mais marcantes, Augusto publica em 1900 seu primeiro trabalho, o soneto " Saudade", no Almanaque do Estado da Paraíba. Em seguida saem no jornal "O Commercio" os sonetos "Vandalismo" e os "Versos íntimos". "Eu", seu primeiro livro, causa impacto: seus poemas despertam sensações paradoxais, que passeiam entre o amor, o ódio e a repulsa. Marca eterna do poeta. Morre em novembro de 1914.
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A OBSESSÃO DO SANGUE - Augusto dos Anjos
Acordou, vendo sangue... - Horrível! O osso
Frontal em fogo... Ia talvez morrer,
Disse. olhou-se no espelho. Era tão moço,
Ah! certamente não podia ser!
Levantou-se. E eis que viu, antes do almoço,
Na mão dos açougueiros, a escorrer
Fita rubra de sangue muito grosso,
A carne que ele havia de comer!
No inferno da visão alucinada,
Viu montanhas de sangue enchendo a estrada,
Viu vísceras vermelhas pelo chão ...
E amou, com um berro bárbaro de gozo,
o monocromatismo monstruoso
Daquela universal vermelhidão!
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A DANÇA DA PSIQUÊ - Augusto dos Anjos
A dança dos encéfalos acesos
Começa. A carne é fogo. A alma arde. A espaços
As cabeças, as mãos, os pés e os braços
Tombara, cedendo à ação de ignotos pesos!
É então que a vaga dos instintos presos
- Mãe de esterilidades e cansaços -
Atira os pensamentos mais devassos
Contra os ossos cranianos indefesos.
Subitamente a cerebral coréa
Pára. O cosmos sintético da Idéa
Surge. Emoções extraordinárias sinto...
Arranco do meu crânio as nebulosas.
E acho um feixe de forças prodigiosas
Sustentando dois monstros: a alma e o instinto!
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VERSOS DE AMOR - Augusto dos Anjos
A um poeta erótico
Parece muito doce aquela cana.
Descasco-a, provo-a, chupo-a . . ilusão treda!
O amor, poeta, é como a cana azeda,
A toda a boca que o não prova engana.
Quis saber que era o amor, por experiência,
E hoje que, enfim, conheço o seu conteúdo,
Pudera eu ter, eu que idolatro o estudo,
Todas as ciências menos esta ciência!
Certo, este o amor não é que, em ânsias, amo
Mas certo, o egoísta amor este é que acinte
Amas, oposto a mim. Por conseguinte
Chamas amor aquilo que eu não chamo.
Oposto ideal ao meu ideal conservas.
Diverso é, pois, o ponto outro de vista
Consoante o qual, observo o amor, do egoísta
Modo de ver, consoante o qual, o observas.
Porque o amor, tal como eu o estou amando,
E Espírito, é éter, é substância fluida,
É assim como o ar que a gente pega e cuida,
Cuida, entretanto, não o estar pegando!
É a transubstanciação de instintos rudes,
Imponderabilíssima, e impalpável,
Que anda acima da carne miserável
Como anda a garça acima dos açudes!
Para reproduzir tal sentimento
Daqui por diante, atenta a orelha cauta,
Como Marsias ¿ o inventor da flauta ¿
Vou inventar também outro instrumento!
Mas de tal arte e espécie tal fazê-lo
Ambiciono, que o idioma em que te eu falo
Possam todas as línguas decliná-lo
Possam todos os homens compreendê-lo!
Para que, enfim, chegando à última calma
Meu podre coração roto não role,
Integralmente desfibrado e mole,
Como um saco vazio dentro d`alma!
:: DELIRIUM 8:19 PM [+] ::
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:: Quinta-feira, Agosto 12, 2004 Comments: ::
Bom ... isso aqui ta meio parado .. e como hj eu passei o resto dos meus poemas (os que mereciam pelo menos) pro computador eu vou posta-los ...
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CANTO NECROMANTICO - Delirium
Vidas perdidas
E sem direção.
Todas escondidas
Fugindo da podridão!
Acordem e levantem!
Saiam das covas!
Voltem do alem!
Abri-lhes as portas!
Caminhem novamente!
Semêem a destruiçao!
Sigam cegamente
As ordens da corrupção!
Cortem , rasguem mordam!
Alimentem-se de mortais!
Sou seu mestre, ouçam!
Pois para vós abri os portais!
Voltem do inferno!
Retornem do limbo!
Destruam todos!
Matem e...
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AMBIGÜIDADE - Delirium
Amo minha familia.
Odeio todos eles!
Sem eles não vivo.
Quero matar a todos!
Estou sempre feliz.
Enraivecido com esses inuteis!
Não sei o que faria sem eles.
Só queria que desaparecessem!
Sinto saudades da infancia,
Onde nos divertiamos juntos!
Saudades daquele passado,
No qual queria ve-los sofrer!
Então fujo da solidão
Refugiando-me na luz.
Mas sempre volto para as trevas,
Pois vejo a luz, e ela queima!
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ÓDIO - Delirium
ódio, sentimento brutal!
Marca da humanidade,
Aquecendo o sangue mortal!
Apenas gerando raiva e luta,
Sofrimento e desespero!
Deixando marcas em nossos corpos,
E cicatrizes na alma!
Gerando apenas mais ódio
Nesse ciclo infernal!
Solidariedade e fraternidade?
Apenas marcas da hipocrisia!
Da falsidade humana!
Ódio é o que nos move!
Essa é nossa exencia!
Não ha como fugirmos
Desse frenezi insano!
Pois nossa natureza,
Por mais que neguemos,
Não é nada menos que,
O ódio...
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O ANJO - Delirium
Oh! Anjo celeste!
Criatura de beleza divina.
De suas majestosas asas brancas,
Emana a luz da salvação.
Anjo, belo anjo!
Proteja os humanos da ignorancia,
Mortais tão dependentes de tua graça.
Ah! Meu caro anjo!
Indigne-se com a raiva dos homens!
Enraivessa-se com o ódio humano!
E odeie a hipocrisia dos filhoos de Deus!
Sim meu anjo das trevas!
Não percebestes esses sentimentos fracos,
Nem que fora corrompido por seu rebanho!
Pois bem anjo caído!
Ainda detem sua beleza!
Mas agora suas negras asas,
Trazem as trevas da perdição...
:: DELIRIUM 7:39 PM [+] ::
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